uma solidão diferente

Eu não me importo tanto com a burocracia do processo de adoção pois, como sempre digo ao Paulo, eles precisam saber quem somos. No fim das contas, se você olhar com cuidado, os documentos servem apenas para comprovar que você é uma pessoa idônea, com uma renda que comporte ter um filho, com a cabeça no lugar e com uma família minimamente estruturada para receber uma criança. É o mínimo que o Estado pode fazer para cumprir as regras do ECA e pelo menos tentar garantir às crianças os direitos delas.

O que tem sido estranho, para mim, é essa gravidez tão atípica. Primeiro, porque não tem aquela coisa de contar pras amigas, receber parabéns, ganhar sapatinhos de presente, chá de bebê, essas coisas que toda mãe de primeira viagem sonha. Eu estou grávida mas é só na minha cabeça, dentro do meu mundinho. E mesmo as amigas mais chegadas, que dão parabéns, não se sentem à vontade o suficiente para fazer perguntas. Descobri que a adoção, em especial a tardia, envolve tantos mitos que as pessoas queridas preferem não dizer nada, provavelmente por medo de dizer besteira.

Segundo porque, mesmo dentro do meu mundinho, não posso - pelo menos por enquanto - curtir a “gravidez” como curtiria se tivesse um bebê crescendo dentro de mim. Se fosse este o caso, eu saberia que daqui a exatos 9 meses, talvez um pouco menos, eu teria um bebê recém-nascido em casa, cujo sexo eu saberia depois do terceiro ou quarto mês. Com base nessa informação, eu poderia decorar o quartinho, comprar roupinhas, brinquedos, etc.

No meu caso, contudo, sem saber quando chega o filho, se é menino ou menina, qual é a idade exata, quais são os gostos, etc., nada disso é possível. No outro dia pensei numa coisa que posso comprar: cds! Para cds de música clássica, historinhas, etc., não tem idade. Então, por enquanto, é a única coisa que penso que posso comprar para o “enxolval” do meu pingo de gente.

E vou seguindo nessa minha solidão diferente.

12 Comentários

Em 10 de January de 2008 10:35, Renata disse:

A burocracia é burra.
A criança passa a ser adolescente e os casais querem filhos bebês, que se pareçam com eles! Como os casais poderão educar um alguém que já tem caráter e personalidade formados.
E a espera não é tão doce na filha de adoção do Brasil!
Mas sorte vai ter a criança que cair no seu lar Paula. Uma educação cidadã e uma casa com amor e paciência, trarão um amigo… ou amiga para toda vida!

Em 10 de January de 2008 10:58, Fabíola disse:

Paula e Paulo, Parabéns!
E já aviso que estou mortinha de inveja… porque eu também quero (adoção e tardia) mas meu maridão não quer. Pelo menos não por enquanto.
E eu sou filha do coração. E tenho um irmão do coração também. E amo meus pais, e amo meu irmão. E sempre soube disso. Desde que me conheço por gente.
Parabéns, parabéns, parabéns!!!!
Se quiserem conversar alguma coisa, Paula, vc sabe onde me encontrar. E com relação a sensações de gravidez… vou te contar uma coisa: eu cheguei pra minha mãe com 2 dias de vida e ela me disse que ficou literalmente de “quarentena” quando cheguei. Ela disse que sentiu mais ou menos tudo o que se sente, um cansaço, umas dores, sono muito atrasado, como se ela tivesse ‘me parido’. E eu acho que no seu caso talvez não aconteça isso (por vc preferir a tardia… o neném não virá tão neném), mas tenho certeza que vc deve estar com um brilho nos olhos que só mães que desejam muito seus filhos tem.
Amor pra vocês! E beijos e chamegos pro pimpolho ou pimpolha!!

Em 10 de January de 2008 14:24, Rafaela disse:

Pois é, a burocracia às vezes chateia mas é muito necessária… Para no mínimo garantir um futuro ao menos digno e saudável a uma criança que mal veio ao mundo e já teve o infortúnio de, por qualquer motivo, ter de ser afastada da família biológica… Mas também acho que serve como uma gravidez, como disse a Paula. É aquele período que os “adotantes” (porque não quero escrever casal!) têm pra se preparar tanto psicologicamente quanto materialmente, comprando coisas, mesmo sem muita previsão “de quem virá por aí”. Geralmente as pessoas levam tempo para tomar essa decisão, mas há sempre impulsivos que podem não gostar tanto da idéia depois de algum tempo…

Outra coisa: eu também penso que deve ocorrer muitas lendas com essa questão da adoção. Fosse eu Juíza de uma Vara destas, ou psicóloga, ou assistente social, certamente investigaria com rigor a nova família da criança, mas no mínimo com felicidade e agilidade em respeito às pessoas tão admiráveis que resolvem pela adoção.

Mas claro que eu dou meus parabéns, torcer horrores, só sugiro que, chegando pertinho e já sabendo algumas coisas além do belo gosto musical que o seu pingo de gente terá, você faça um chá de bebê (independente da idade dele, bebê ou não!) espertíssimo, com tudo que tem direito - menos as coisas bregas que envolvem o evento. Com a vantagem que você vai até poder tomar álcool com as amigas! ;)

Em 11 de January de 2008 09:23, zel disse:

paula, vi uma história no luciano huck (hulk? sei lá) nas férias sobre um casal que adotou 54 crianças, todas elas especiais. incrível, os dois! acho massa adotar, tenho uma tia que adotou e que teve vários problemas sim com a criança, mas nada insuperável. problemas de crianças com lares disfuncionais (well, a maioria dos lares por aí, eu chutaria).

agora tem uma coisa que acho que ajudaria as pessoas próximas a ficarem mais próximas da questão: explicar o porquê. por que vocês resolveram adotar? por que adotar antes de ter filhos biológicos?

e tem outras questões interessantes quando se resolve adotar e não engravidar, por exemplo: não havendo a gestação, vocês vão praticar algo como “licença-(p)maternidade” nos primeiros meses? e a vida de vocês, vai mudar em função da adoção (especialmente a sua, que trabalha muito)? existe algo como um período de adaptação, como fazer a criança já grandinha se integrar à família?

muitas coisas que eu fiquei com vontade de perguntar aos pais das 54 crianças :) eles inclusive adotaram 4 irmãos ao mesmo tempo, numa das vezes. demais né?

beijo e boa sorte!

Em 11 de January de 2008 21:43, andy disse:

eu não sei direito o que é uma adoção tardia, visto que adotar um filho para mim é uma coisa do momento certo.

não acho que é mais válido adotar uma criança com 20 ou com 50 anos (conheci histórias lindas de vovós, senhoras já de idade e com netos, que adotaram crianças e “aumentaram” a família deste modo tão bonito, num caso uma mulher de 52 anos adotou um garoto com sindome de down, fiquei muito tocado assumir o amor e a responsabilidade com a criança).

sobre se a criança é bebê ou não, ah eu gostaria de ter um bebê para mimar e tudo mais porquê vou ser o maior pai bobo, mas meu primeiro filho eu estava pensando em adotar um garoto mais crescidinho. pelo simples fato de que eles não saem do orfanato na maioria das vezes neste país (e em muitos outros, já que todo mundo quer nenem)

O que é triste é que todo mundo quer adotar apenas bebês para em váaarios e váaarios casos esconder da criança que ela não é um filho biológico.

eu já acho que jogar limpo é antes de tudo a forma mais íntegra de se educar uma criança, uma pessoa e naõ privá-la da verdade e a proteger da vida, isso é impossível.

A vida é como é, mas cabe à nós sermos e fazermos pessoas mais íntegras, e mostrar à nossos filhos (sim, são filhos), que apesar de qualquer coisa que aconteça, pode-se sim recomeçar sempre e viver uma vida feliz e digna.

sinta-se à vontade para ser mamãe, mesmo sem o chutezinhos na barriga, e tenha certeza que sua vida vai mudar completamente daqui para frente, e isso toda mãe, grávida ou “grávida” (mais à sua maneira) vai sentir quanto pensar que a vida, as horas e acasa vão ser todas repensadas em torno deste pingo de gente.

sobre o enxoval, tem muita mãe que só sabe o sexo quando o bebe nasce, alguns casos não é nem por escolha, não dá para ver no ultrasom.

Mas relaxa, vai ser um tormento delicioso na hora certa montar o espaço do pequeno.

Sobre as amigas, não é receio, talvez nem medo de falar besteira, mas é uma situação para qual elas não estão preparadas, não sabem como lidar,

Dá uma forcinha, vai inserindo elas neste espírito de mamãe (que vai começar agora para até o final da vida viu). Quando elas sentirem a firmeza em te ver como alguém que vai ter uns 8 anso ouvindo “o mããããe” à toda hora, vão se sentir mais familiarizadas, e a nem vão notar a diferença da “gravidez diferente”.

Brincar com o fato e responder a não-perguntas ajuda também, puxar conversa com outras mães é a maior coisa de mãe, pegue dicas com quem já tem filho, estas histórias são divertidas e valiosíssimas, ajuda bastante viu, desde para quem tem bebe até para quem tem filho pequeno.

Mais que o maior ato de generosidade, ser mãe assim é um ato de amor….

e você tem todos os meus elogios, não vou me cansar de falar isso.

Beijos aos novos PAIS! à PAULA e ao PAULO, aumentando a família Polzonoff

Em 12 de January de 2008 11:03, Paula Abreu disse:

Andy, muito obrigada pelo seu comentário, você disse várias coisas valiosas. Vou explicar melhor o que é adoção tardia no blog, mas já adianto que não tem a ver com a idade dos adotantes, mas sim do adotado. Considera-se tardia a adoção de crianças maiores de 3 anos de idade que, como você mesmo disse, têm muito menos chances de conseguir uma família do que os recém-nascidos. Você, por exemplo, pelo visto também é forte candidato para uma adoção tardia, já que não tem preconceito de adotar um menino “maiorzinho”. Quem sabe os nossos filhos não vão ser amigos, né? :)

Em 14 de January de 2008 12:41, Rafaela disse:

Zel, há licença maternidade para filhos fruto de adoções sim! Quanto mais velha a criança, menor é o período. Não é o máximo? Às vezes, muito poucas vezes, a legislação brasileira surpreende horrores. Super justo.

Em 6 de February de 2008 17:24, Sofia disse:

Li sem querer seu post….
Me identifiquei demais.
Estou tb trancada aqui no meu mundinho….eu imaginava receber parabéns…mas ouvi de minha própria família, contenha-se….
Confudiram minha felicidade com ansiedade…
Aí resolvi trancar-me de vez nesse belo mundinho que é talvez, tornar-me mãe.
Talvez pois sermos habilitados é fácil…difícil é ficar numa enorme fila….e olha que não estamos escolhendo…..

Abraço e parabéns futura mamãe.

Sofia

Em 7 de February de 2008 09:45, Paula Abreu disse:

Oi Sofia,
Todo mundo confunde a felicidade da adotante com ansiedade, não tem jeito… Eu encontro muito conforto no grupo Panelinha do Coração, no Yahoo Groups. É um grupo bastante unido de mães (e alguns pais) que já adotaram ou pretendem adotar. Nada melhor do que estar junto de quem entende a gente, nem que seja pela internet.
Beijos
Paula

Em 5 de April de 2008 16:17, JOSÉ MAURICIO AMORIM disse:

ADOREI ESTE COMENTARIO E PARA CONCRETIZAR MEU TEMA DE MONOGRAFIA ESCOLAR, NADA MELHOR DE FALAR SOB O TEMA .
ATRAVES DESSA LEITURA FICO MUITO HONRADO DE SUA PERSEVERANÇA E LUTA PARA CONSEGUIR SEU DESEJO.
NÃO ME CONHECE MAS ESTA TODO MEU CARINHO.
BJSSS.

Em 8 de April de 2008 16:31, Paula Abreu disse:

José Maurício, obrigada pelo seu carinho e boa sorte com a sua monografia!
Beijos

Em 11 de April de 2008 17:48, Luciana disse:

Falando em o que fazer enquanto eperamos nosso filho… estou fazndo um scrapbook contando sobre a adoção e esta espera. Visite o site scrapandtell.com tem boas dicas


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